Bau

Rufino Almeida
Mindelo, São Vicente, 1962
Compositor, instrumentista (cordas)
Virtuoso das cordas, autodidata, Bau retira o cavaquinho do segundo plano que ocupa habitualmente nas formações de música tradicional cabo-verdiana, na marcação do ritmo, e alça-o à condição de solista. Vem da infância a sua ligação a este instrumento, não só como intérprete mas também como construtor. O pai, Mestre Baptista, afamado construtor de instrumentos que transmitiu o seu saber a toda a sua prole, ofereceu-lhe um cavaquinho aos sete anos. Bem mais tarde, Bau irá inovar essa área em Cabo Verde, ao adaptar o instrumento às suas necessidades, criando um modelo próprio, com características técnicas convenientes ao solo e que vem a ser produzido em série como Cavaquinho Bau. Como músico, foi aprendendo pela observação, praticamente sozinho: “Nunca estive numa escola, mas a experiência das outras pessoas é também uma escola, não é? Aprendi algumas coisas de harmonia e teoria, mas só para ter uma ideia, nunca me dediquei a isso. Sou músico de ouvido, mais do que por estudo, toco por feeling” (Cabo Verde & a Música -Dicionário de Personagens).
Por volta dos 14 anos, Bau interessa-se pelo violão, e aos 17, com outros rapazes da mesma idade, entre os quais Tito Paris e Biús, forma o grupo Gaiatos, com um repertório eclético de pop, samba e ritmos cabo-verdianos. De 1983 a 1987 é a vez do Grito de Mindelo, que animava bailes e no qual Bau tocava baixo e guitarra. A Banda Ferrim vem a seguir, e é por essa época que alguém lhe oferece uma cassete de choro, do mestre do cavaquinho brasileiro Waldir Azevedo, momento determinante no rumo que viria a tomar na música.
“Vi que o cavaquinho tinha mais possibilidades, não era só acompanhamento, afinal. Um instrumento tão pequeno, tão limitado em nível de escala mas que faz coisas maravilhosas.”
Bau, em Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens
A partir de finais da década de 1990, volta-se então para a música acústica, e o seu grupo seguinte será o Mindel Band, formado em 1991 por iniciativa de Djô da Silva para acompanhar Cesária Évora na gravação de Mar Azul.
Três anos depois é editado o seu primeiro álbum a solo, e Bau adquire rapidamente uma notável visibilidade, conseguindo o que poucos artistas do arquipélago que atuam no exterior conseguem, mesmo entre os mais renomados localmente: conquistar um vasto público interessado em jazz e música instrumental em geral, extrapolando os limites das comunidades de emigrantes cabo-verdianos.
Entre 1995 e 1999, Bau volta a tocar com Cesária, liderando o grupo de suporte da cantora, enquanto consolida a sua própria carreira como intérprete e compositor, para além de atuar como músico e arranjador em discos de vários artistas. Um tema seu, “Raquel”, é incluído na banda sonora do filme Habla con Ella, do realizador espanhol Pedro Almodóvar. Em 2000, Blimundo – que põe em destaque o violino, pelo qual se interessa já adulto, também neste caso por influência do pai – é um álbum maduro, em que Bau revela não só toda a sua mestria nos vários instrumentos de corda, como a liberdade com que reelabora diferentes influências e renova a música cabo-verdiana.
Seguem-se outros álbuns com ênfase no violão, entre os quais o que faz em parceria com Voginha, num tributo aos representantes da tradição instrumental cabo-verdiana. Em 2012, inaugurando outra vertente, aparece a interpretar temas de Vasco Martins, num disco que conta com o próprio Vasco nos teclados, arranjos e produção, pelo qual Bau recebeu do Cabo Verde Music Awards 2013 o prémio de melhor álbum acústico de 2012 e o de melhor instrumentista, e Vasco o de melhor compositor, pelo tema “Tropical violão”.




Discografia
- Top d’ Coroa, CD, Lusafrica, Paris, 1994.
- Jaílza, CD, Lusafrica, Paris, 1995.
- Inspiração, CD, Lusafrica, Paris, 1998.
- Blimundo, CD, Harmonia, Praia, 2000.
- Cape Verdean Melancholy (compilação), CD, Lusafrica, Paris, 2002.
- Silêncio, CD, Harmonia, Praia, 2003.
- Ilha Azul, CD, Harmonia, Mindelo, 2005.
- Relembrando os mestres (com Voginha), CD, RBR, Dorchester, 2008.
- Café Musique, CD, Lusafrica, Paris, 2010.
- Bau plays Vasco Martins, CD, Lusafrica, Paris, 2012.
- Anthologia Acústica (com Voginha, compilação), Boa Música, São Vicente, 2015.
- Participação no CD, gravado ao vivo, Noite de Cabo Verde no Zénith, Lusafrica, 2001.
- Boas Festas, CD, RBR, Dorchester, 2004. Com Dudu Araújo e Grace Évora. Regravações de alguns temas do disco Boas Festas, de Luís Morais, e de Hoje é Natal, de Manuel d’ Novas.












Composições
Café Musique; Coqueun; Cucli; Elisabeth; Ilha Azul; Inspiração; Jaílza; Luanda; Mindelo;
Momentos em Paris; Morena; Noite Serena; Passagem; Raquel; Sereia; Silêncio ; Tôp d´Coroa;
Vibrações.