B.Léza

Com um acorde de transição entre duas notas da melodia, também chamado “meio tom” (ou semitom), B.Léza é apontado como aquele que estabeleceu um marco na evolução da morna, sendo esta a sua grande contribuição para a História da Música de Cabo Verde. Aponta-se esta inovação como resultado da influência da música brasileira, com a qual o compositor contactava através dos marítimos que habitualmente escalavam o Porto Grande.
B.Léza foi uma figura extremamente popular. Nos anos 1930, é já um compositor consagrado. Em 1940, desloca-se a Portugal para participar na Exposição do Mundo Português, liderando um grupo de cinco músicos. No fim da exposição, os companheiros regressam a Cabo Verde e B.Léza, que tinha um problema ortopédico (resultante de tuberculose óssea que sofrera na juventude) fica em Lisboa para tratamento. É numa cadeira de rodas que retorna a S. Vicente, em 1945. São desse período em Portugal, entre outras, as mornas Terra longe e Ondas sagradas do Tejo.
“Quando tivermos a objectividade para auferirmos a tua verdadeira medida, então, B.Léza, serás uma figura quase mística para aquilo que o nosso povo compreende melhor, e interpretaste como ninguém: o encontro lírico com os horizontes escondidos atrás das durezas quotidianas.”
Baltasar Lopes da Silva, ao microfone da Rádio Barlavento, na noite de 14 de Junho de 1958, dia da morte de B.Léza
O compositor teve um fim de vida ensombrado por penúria, álcool e doença, que não impediram, se é que não inspiraram, algumas das suas mais belas composições.
As músicas de B.Léza começaram a ser gravadas no início dos anos 1950 e desde então continuam presentes no repertório de grande número de intérpretes cabo-verdianos e mesmo alguns estrangeiros. Para além da vertente musical, em que se destacam as mornas, embora tenha composto também koladeras, marchas de carnaval e sambas, B.Léza publicou poemas em português e em cabo-verdiano e alguns textos em prosa.
Atualidade
Um disco com a voz do compositor B.Léza a cantar, acompanhado por Luís Rendall, será lançado pela editora portuguesa Tradisom. Trata-se de gravações realizadas pelo empresário Tuta Melo (Augusto Guilherme Lima de Melo, 1916-1999) no início dos anos 1950. A informação foi divulgada pelo jornal português Público (24.02.2021).
Composições
Académica, Alfacinha (Parceria com Luís Rendall), Alo Alo Sanvicente; Amizade, Amor, Barca Sagres; Bejo d’ Sodade (Bêjo di sodade/Ondas do Tejo); Bia; Brasil; Chã de Pedra; Dilinha; Distino d’ homi; Dor de Sodade; Doutor Adriano; Dulcinha (Dulcínia); Eclipse; Estrela da marinha; Fada; Flor de rosera; Fraco sentimento; Hitler; Isolada; Judith; Lua nha testemunha; Luísa; M’ sonha cu bo Djar-Fogo; Mar azul; Marcha de Oriundo; Rapsódia de mornas; Micá; Mindelense; Minduca; Miss perfumado; Miss Unidos; Morabeza; Morgadinha; Nossa Senhora de Fátima; Nôte de Mindelo; Nova Sintra; Odjo di nhâ; Oriondina; Partida; Paul; Pensamento; Resposta d’ segredo co mar; Ribeira Grande (por vezes apontada como sendo de Mário Marta, ou parceria de ambos); Romance do nosso amor; Romeu dos mares; Segredo cu mar; Talvez; Tanha; Terra longe; Trás d’ horizonte
Obras da autoria de B.Léza
- Uma partícula da Lira Caboverdeana (Praia, Tipografia Minerva de Cabo Verde, 1933, letras de mornas).
- Flores murchas (Mindelo, Sociedade de Tipografia e Publicidade Lda, 1938, poesia).
- Fragmentos – Retalhos de um poemeto perdido no naufrágio da vida (Mindelo, Sociedade de Tipografia e Publicidade Lda, S. Vicente, 1946, poesia).
- Razão da amizade caboverdiana pela Inglaterra (Rio de Janeiro, sem dados, 1950, texto em prosa de carácter histórico, com glossário de termos na língua cabo-verdiana vertente de São Vicente).


Ouvir
Para saber mais

O tempo de B.Léza – Documentos e memórias. Gláucia Nogueira (Praia, IBNL, 2005)

O tempo de B.Léza – Documentos e Memórias. Gláucia Nogueira (e-book, e-galaxia, 2020)